Sobre os três primeiros meses do governo Jair Bolsonaro

Já é abril e pergunto ao leitor: os três primeiros meses de governo Jair Bolsonaro pagaram sua escolha? Justificaram as brigas? As amizades (ainda que amizades discutíveis) trincadas ou rompidas de vez; a estigmatização como “bolsomínion”; os estragos no sistema nervoso por conta dos noticiários editorializados contra o candidato; as querelas das redes sociais; tudo, enfim, tem recebido pagamento nestes três primeiros meses?

Ou sintetizando estes questionamentos em uma indagação:

Repetiria o voto?

A razão entre as razões dos eleitores – a confiança em um outsider para enfrentar o que parecia inconfrontável – não parece estar sendo confirmada.

Muitos dos interlocutores declaram o mesmo voto, mas exibindo a ressalva: “Perto da opção, queria que votasse em quem?”. Este apoio residual ainda subsiste, mas mesmo este resto de adesão popular se esgotará diante dos recuos e adiamentos de confrontos.

Pois trata-se de confrontar o sistema de Poder do PT e associados, o Poder da casta acadêmica, esta escolha de milhões em um homem escolhido para vilão por quase totalidade dos meios de comunicação de massa e dos ditos “setores organizados da sociedade civil”.

Fosse apenas escolher um mero administrador competente, um adversário inodoro e insípido do então governo, havia outras candidaturas a ser escolhidas sem tanto peso de marginalização em certos ambientes para o eleitor. Qualquer liberal do gosto dos redatores da “Veja” ou da “Folha de S.Paulo” seria menos pesado para o cidadão que tinha que, sempre que declarando o voto, apresentar rol de justificativas.

Não! Escolheu-se o candidato que parecia ser o menos preocupado com o juízo de editorialistas e âncoras de canais de TV por assinatura a seu respeito. O homem que parecia conectado às aflições do sujeito encontradiço nas filas de ônibus e estações ferroviárias de subúrbio, o trabalhador que madrugava para apresentar-se ao assaltante que, também ele, acordava cada vez mais cedo – a madrugada sofreu sua desmoralização como horário perigoso; filas de postos de saúde substituíram os arredores de bares como sítios de colheita.

E, uma vez mais, governo recém-empossado levanta a questão das questões, a urgência das urgências: a reforma da Previdência. Não foi assim no início do segundo governo Dilma Rousseff, e também o de seu sucessor Michel Temer? Como nas três ocasiões (campanha da reeleição de Dilma, campanha pelo impeachment e campanha de Bolsonaro) não se levantou esta que é apresentada como o primeiro passo obrigatório para todo o resto de Governo; após a posse, este assunto desagradável veio à tona, ou veio à tona de maneira mais incisiva- não importa. O eleitor sente-se, com razão, vítima de um golpe de João-Sem-Braço.

Mas há outra razão para que a popularidade do Presidente (e não me fio apenas nos institutos de pesquisa, mas nos interlocutores de fila de ponto de ônibus, os quais me parecem mais confiáveis que qualquer pesquisa) sofra erosão: a imobilidade diante de ataques diários. Difícil o eleitor continuar combatendo nas redes sociais quando o Presidente é acusado de envolvimento no assassinato de Marielle Franco sem maiores consequências para os acusadores. Até mesmo uma repórter da Fox (canal próximo ao Partido Republicano) sentiu-se à vontade para indagar sobre o envolvimento do Presidente em uma entrevista durante a visita de Bolsonaro aos Estados Unidos. O eleitor sente-se vencido; basta o que enfrentou, durante a campanha. Sobre esta não-defesa escrevi no blog em 26/01/2019:

“Outra coisa que me inquieta: onde uma coordenação para monitorar ataques nas redes sociais? É preciso rastrear autorias de ataques ao Presidente, ataques que são replicados por celebridades televisivas sem um acréscimo de uma vírgula, muitas vezes. Os simpatizantes do Presidente no lugar de procurar a matriz dos ataques insultam as ditas celebridades televisivas, que apenas seguem o rebanho; como fariam mais que seguir rebanhos se as paredes de suas casas são nuas de livros? Os ataques e cobranças debochadas de explicações são de autoria de publicitários e assessorias de imprensa das ditas celebridades, e estes mentores de linchamento virtual seguem incólumes enquanto a massa de eleitores e simpatizantes os ignoram. Não há quem tenha pensado nisto? Não há quem esteja investigando isto? Não há assessoria presidencial?Ninguém processa ninguém.”

Daí eu não duvidar da pesquisa do IBOPE; há sim, nas ruas, o sentimento de quem até repetiria o voto, mas sem vestir camiseta. E também acredito que não foram poucos os que responderam estar insatisfeitos com o Governo que, ou não votaram no candidato vitorioso, ou votaram apenas para não votar no candidato do PT. Como escrevi antes no blog, foi uma vitória que não autorizava maiores comemorações.

Muitos também se perguntam: que adiantará ao Brasil a Economia se recuperar se a liberdade de expressão for extinta via tribunais tangidos por grupos de pressão? Quando o Presidente viu-se forçado a recuar no caso do tuíte do carnaval ele ficou menos Presidente. O fato é que se o Presidente pode ser interpelado por uma opinião, qualquer um pode, e o eleitor questiona qual diferença há entre votar em um candidato da casta acadêmica e um suposto inimigo da casta acadêmica que não a enfrenta com vigor.

E volto ao ponto da insegurança: que adiantarão números fantásticos advindos de possível êxito de reformas, se o temor de ver a família amputada de membros por mãos de criminosos persiste por conta de um pacote anti-crimes ainda cuidadoso de confrontar tabus estabelecidos por “doutores em causas da violência”?

“São apenas cem dias”.

Sim, mas em cem dias há que enviar sinais de que a escolha foi sim acertada, e que o Presidente veio para ser, ao cidadão comum, sua defesa contra poderosos não eleitos.

Falta ainda melhorar comunicação com o eleitor, como observou Olavo de Carvalho ao Pedro Bial, e como escrevi no blog no dia 20/01/2019:

“Penso que a comunicação com os eleitores deveria ser melhorada; lives de Bolsonaro têm a inconveniência do formato, cansativo e quebradiço.”

Como Olavo disse na entrevista ao Bial, mensagens televisivas semanais são necessárias, pois muitos brasileiros não estão ainda conectados à internet, já à televisão…

Mexer-se é necessário. Rever prioridades, mais ainda. Voltar a ouvir seu eleitor sobre o que é de fato urgente, vital.

Caso o Governo continue hesitante, o trabalho da grande imprensa e dos ativistas de rede social terá sucesso: o Presidente atravessará o mandato desmoralizado e seu eleitor desmotivado para a próxima batalha. Escrevo próxima batalha no singular pois duvido que se esta for perdida, haverá outras no médio prazo.

Certas oportunidades não voltam sensibilizadas pelo arrependimento de quem as desperdiçou. A vitória de um nome execrado pelos poderosos talvez não volte a acontecer no espaço das próximas décadas.

E as massas sentirão, de forma cruel e talvez definitiva, o que significa o abandono total diante dos seus inimigos. Lembrarão com amargura os conselheiros da capitulação que puseram tudo a perder, mas será tarde, e elas não terão culpa.

O desespero será então o vitorioso que cobrará todos os prêmios.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.