Os Explicadores de Tragédias – Edição Manaus
Decapitações, presos segurando corações de presos mortos, corpos empilhados em carrinhos; todo o elenco de imagens monstruosas fizeram reprise em mais um massacre nas prisões brasileiras. Presos massacrando presos.
Lembrei do presídio de Pedrinhas, e seus corpos sem cabeça enfileirados no pátio.
Os explicadores de tragédias dos canais a cabo, e falo sobretudo do “GloboNews” não se furtaram a colaborar com o momento: todo estoque de frases de cafeteria sobre “correlação baixa escolaridade/criminalidade’”, “política de apartheid social”, “falência da política de prisão no Brasil”, “ressocialização de presos” e todos os etcs invocados por ocasiões destas tragédias.
Quem discute que o modelo prisional brasileiro não recupera delinquentes? Quem nega que celas lotadas de presos pobres são imagens de uma sociedade atrasada e implacável?
Acontece que estas tertúlias sobre o óbvio não vêm resolvendo o problema – professores universitários, “doutores em causas da violência” não apresentam medidas concretas à sociedade; massacres periódicos de presos por presos negam teorias.
Claudio Tognolli (jornalista de competência indiscutível, e cumpridor de seus deveres profissionais) escreveu ontem em seu twitter sobre “comunas”do “GloboNews” que jamais visitaram presídios, contrapondo-os a si, que conta com fontes nestes meios (exibiu fotos apavorantes para ilustrar o que afirmava) e forneceu em vídeo verdadeira aula sobre o que ocorreu em Manaus. É isto mesmo: estes canais a cabo não convidam quem cobre polícia.
Escrevi algumas vezes sobre isto aqui no blog, e o arquivo está disponível. Para poupar os leitores do esforço de procurar, aí vão alguns links: https://fernandopawwlow.wordpress.com/2011/08/02/com-a-palavraos-explicadores-de-tragedias/
(publicado também no 247; na ocasião, o delegado Francisco Carlos Garisto, nome que respeito e considero obrigatório na área, honrou o texto, replicando-o em seu twitter)
“Notas” – 24/09/2015
Notas dos “Cadernos”: A “crise” da “Imprensa Golpista”,”Discutir mudanças na lei agora? Deixa os cadáveres esfriarem”e Ruy Mesquita, mais uma baixa entre os guerreiros do Brasilhttps://fernandopawwlow.wordpress.com/2011/04/08/os-vampiros-da-tragedia-de-realengo/
Há nas mentes brasileiras o efeito da anestesia ministrada por jornalistas que esvaziam o conteúdo dramático destas explosões de violência com suas explicações subsociológicas; a dignidade humana sendo barateada nestas frivolidades televisivas que buscam emprestar seriedade da casta acadêmica.
Meu pai prestou serviço voluntário na APAC (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado) de Viçosa e verificou que medidas socioeducativas funcionam para presos de menor periculosidade. Sugiro aos leitores que pesquisem sobre as APAC .
Certa vez discuti com um adversário da redução da maioridade penal; os menores “virariam mulheres” no presídio. Preocupação compreensível, mas esta mesma objeção pode – e deve – contemplar presos de baixa periculosidade, não esquecendo os “menores’” que são feras temíveis. O que se deve evitar é o confinamento em massa, as celas superlotadas, a mistura indistinta de delinquentes recuperáveis com criminosos que se provaram irrecuperáveis – pelo sadismo, pela ausência de compaixão pelas vítimas e por companheiros de cárcere, etc.
Esta a mudança a ser proposta por quem se interessa pelas vítimas de criminosos e por presos no Brasil: a mudança da política penal, independente dos critérios etários, este tabu numerológico que só oferece, como prêmio a quem o obedece, números anuais de guerra civil.
Caso houvesse interesse com a questão que não fosse a da implantação definitiva da política elaborada pela casta acadêmica, tabus seriam questionados pela classe jornalística, mentora da classe política. Como a classe jornalística é servil à casta acadêmica (mesmo por fruto desta, graças à obrigatoriedade do diploma de Jornalismo), tabus ditados por esta estão salvos de questionamentos e revisões.
Quem questiona dogmas acadêmicos no Brasil recebe, por irônico que pareça, o rótulo de “fundamentalista”.
E tabus e dogmas assim atravessam anos, gerações. Não podemos melindrar os elegantes do “GloboNews” e os sábios dos departamentos universitários.
Mesmo que com o preço de dezenas de milhares de homicídios anuais e periódicos banhos de sangue – sangue de filhos de gente pobre, gente que não pode gastar fortunas com advogados.
Quem lembra isto é, também por irônico que pareça, “reacionário”.