Selvagens motorizados

Noto a moda entre os motoristas (falo de BH, mas não ficarei surpreso se estiver em vigor em todo o território nacional): ir avançando sobre a faixa de pedestres no sinal fechado, obrigando o pedestre a atravessar quase na pista transversal. No sinal aberto, enfim avançam, e insultam o pedestre. Como é cena comum (mesmo no Centro), não duvido da leniência das autoridades, pois multas e penalidades decerto teriam imposto outra cultura aos motoristas. O pedestre que se apresse, ou compre um carro também.

Ontem, acompanhando minha mãe, à casa de minha irmã, o taxista parou em frente à garagem do prédio. Já estávamos pagando, com a porta aberta e um motorista do outro lado da rua buzinava seguidas vezes, até que o táxi saísse da frente de sua garagem sagrada. Entrávamos no prédio e ouvíamos as interjeições do motorista, que cessaram assim que olhei para ele. Não que eu não compreenda o erro do taxista, mas a intolerância do morador do prédio e sua agressão (considero agressão a bronca buzinada e acompanhada de interjeições) covarde me irritaram e me levaram a pensar: “Se minha mãe estivesse só, ele não hesitaria em gritar com ela”.

Hoje, passando em frente à pista de saída da garagem do Carrefour Pampulha, com sacolas na mão, fui quase atropelado por uma motorista que avançou sobre a calçada como se inexistisse faixa de pedestre e não estivéssemos no passeio:

“Quer que eu te atropele, caralho?”

Gritei de volta: “Não vê a faixa de pedestre?” Não acrescentei palavrões e mais gritos, por se tratar de uma mulher, velha, e por eu não ser covarde – como ela, que esperava eu me afastar e dar as costas para gritar mais obscenidades, e guardar a cara feia dentro do carro assim que eu me virava. A visão daquela ruína física revelando a miséria mental e espiritual me causou repulsa, nojo físico. Mas presenciar um entulho, uma montanha de rugas e recalque falando palavrões, prevalecendo-se da decrepitude e do fato de ser mulher, me provocou depressão. Como entregam a um ser mergulhado na falta de educação mais elementar um volante? O que uma figura do tipo não faria a uma outra senhora, pedestre, sem forças para correr ou gritar? Ou a uma criança?

Tenho visto, dia depois de dia, carros estacionados sobre calçadas, motoboys balançando a cabeça em desaprovação aos pedestres que usam de seu direito de exigir que os veículos parem na faixa, motoristas avançando e gritando aos pedestres, sem um único guarda por perto. Certa vez, um carro quase me atropelando, avançando o sinal na Pça. da Liberdade, comentei com o guarda. “É, eu vi”. Óbvio que se eu insistisse, iria preso.

Estes motoristas parecem deslocados de tempo histórico, arremessados no séc. XXI diretamente do séc. XIX, e contam com a impunidade como garantidora do que entendem ser seus direitos de condutores de carroça.

Um traço de regionalismo que nem os inúmeros atropelamentos conseguem comover, e corrigir.

Antes tarde…

Augusto Nunes sugeriu que se aproveite o momento de CPIs para uma investigação sobre os dutos de dinheiro que abastecem os blogs governistas.

Bom, escrevi sobre o tema no blog por anos. Sempre que insistia com o jornalista sobre a necessidade de atacar o assunto (mesmo como forma de provocar a classe política a agir), recebia a resposta invariável: “Não vou perder tempo com blogs que ninguém lê. Você superestima a influência desta gente”, etc, etc. Estão na sua coluna em “Veja” (procurem no arquivo, se interessados) as respostas ao Pawlow (antes dele me batizar, sem querer, de Pawwlow) sobre o tema. Quem quiser que procure. Enviei a ele texto de meu blog, publicado em 27 de julho de 2012 e que tratava do assunto. Nele, escrevo: “O recurso sistemático aos tribunais (…) fatalmente levará ao ‘Regente do Coral Vozes do Esgoto’, ao Poder que financia, em nome da “Pluralidade’ este recital repugnante(…)Seria útil aos que ainda podem se fazer notar a detecção dos mentores intelectuais deste arranjo das Comunicações (o texto aludia à política destes sites e blogs de permitir aos comentaristas toda sorte de ataques, o serviço sujo deixado a eles), os gurus deste submundo, os mensageiros entre as galerias do esgoto”.

Eu, de minha parte, fico contente com a percepção, ainda que tardia, da necessidade de se investigar os canais de financiamento de blogs que insultam, que achincalham instituições e que praticam subjornalismo que deseduca jovens aspirantes ao jornalismo, além das massas, expostas ao lixo apresentado como “imprensa progressista”.

Um momento histórico, o da percepção por parte do grande jornalista, do problema da imprensa governista como tema de investigação.

Uma semana que reforçou o Grande Elenco do Céu

Domingo, Cláudio Marzo, ator de tantos filmes memoráveis (escrevo pensando em sua atuação no clássico “Nunca Fomos Tão Felizes’” de Murilo Salles) resolveu trabalhar em outra Companhia teatral, com outros cineastas, que cansados deste cenário cultural melancólico, resolveram mudar de praça. Uma semana que começou com mais esta transferência de mercado. Marzo se juntando aos antigos colegas em montagens e filmagens exclusivas ao público liberto deste mundo, deste tempo.

Quinta-Feira, Jorge Loredo, o eterno Zé Bonitinho também decidiu se juntar ao elenco dos humorísticos – imagino o que perdemos daqui: Chico Anysio, Mussum, Golias, e agora ele.

O YouTube nos socorre nestes momentos: Marzo assaltando sedutoramente em “Se Segura, Malandro” de Hugo Carvana, ou como o guerrilheiro/pai ausente de “Nunca Fomos…”; Loredo em sketches variados e nas participações nos filmes de Rogério Sganzerla.

É o jeito.

Marzo e Loredo

R.I.P

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.