A História do Brasil em bilhetes
A História do Brasil parece ser (pelo que se lê em comentaristas e mesmo em alguns articulistas), redigida em bilhetes dos quais observadores extraem fórmulas de análise política. Nuances e fatos colhidos em épocas distintas não contam aos que emitem seus juízos sobre temas e termos-chave como “Democracia”, “Ditadura”, “Futuro X Passado”, “Cidadania“, entre outros recursos retóricos mais batidos ainda. Quando algum forasteiro interrompe discursos com fatos e possibilidades que eles contêm, ou atribuem ao intruso intenções oblíquas ou ignoram a intervenção, como se esta tivesse sido ruído apenas.
Traindo meus votos de não mais comentar em sites e blogs (pois blogueiro, que pode, e deve, utilizar o próprio espaço para se manifestar), comentei em texto de comentarista – que se assina “Valentina de Botas” – frequente no blog de Augusto Nunes, no site de “Veja”. Texto no qual respondia aos comentaristas que haviam se declarado ofendidos com texto anterior de sua autoria (ou comentário convertido em texto na coluna) no qual admoestava os manifestantes que pedem a volta dos militares ao governo do Brasil. A argumentação dela era semelhante à do titular do espaço: “Os militares aceitam o pedido de intervenção, e ficam então vinte anos cobrando o favor”. Ou : “Não se pode declarar surpreso com Ditadura quem pede socorro aos militares, pois eles não intervirão e voltarão depois aos quartéis”.
Bem… quem lê História do Brasil sabe que 1964 não foi a única intervenção dos militares na política. A República foi um Golpe no Império, e 1930 foi movimento militar, ainda que houvesse um líder civil, Getúlio Vargas, encabeçando o governo. Ou 1945, ou 1954, ou 1955 … Historiadores poderão enumerar outros pronunciamentos que não foram seguidos da permanência no Poder, e não esgotarei o assunto aqui no blog, pois livros – e mesmo a internet- estão disponíveis aos interessados. Mas no caso de 1964 penso que cabe um parêntese explicativo – o qual expus na caixa de comentários do artigo da comentarista:
Quando derrubaram João Goulart, os comandantes do movimento militar não tinham sequer candidato ao cargo de Presidente – Carlos Lacerda conta, em seu “Depoimento”, a reunião que governadores que apoiaram o golpe tiveram com o Marechal Costa e Silva, no qual o chefe militar deu murro na mesa quando comunicado que o candidato a ser apoiado pelas lideranças civis seria a do Marechal Castelo Branco: “Mas ficou combinado que nenhum de nós assumiria”. Lacerda conta ainda que a prorrogação do mandato de Castelo Branco fora aceita tacitamente por muitas lideranças civis (lideranças da própria UDN) e que mesmo ele fora dissuadido de resistir com energia, por conselhos de seu amigo Julio de Mesquita Filho, proprietário de “O Estado de São Paulo”. Helio Fernandes conta versão próxima a esta. Portanto, atribuir aos militares somente a Ditadura que se seguiu, ou sustentar que a derrubada de Jango foi a mãe da Ditadura, é maquiar a História de acordo com ideologias – não importa se liberal ou comunista. Os civis tiveram sua culpa, pois colaboraram prestimosamente com o enterro da “República de ‘46”. Omissões de civis são o fermento do desespero de quem sonha com Militares de volta à cena.
O comentário que postei no dia 02/12/2014, às 1:07 – o primeiro a comentar, verifiquem- foi repetido (ainda que melhor desenvolvido aqui, mas com os mesmos fatos enumerados) no parágrafo anterior, basicamente. Mereceu do titular do espaço e dos demais comentaristas – e sobretudo da comentarista que teve seu texto publicado como artigo – o silêncio destinado às coisas desprovidas inteiramente de importância. Um nada, um zumbido, cujos dados (pelo visto desconhecidos da maioria ali) embutidos nele não mudassem em nada qualquer lógica de Poder, como se não provasse – com fatos e nomes- que a premissa do texto da comentarista (repito, a mesma do articulista dono do espaço) era falsa, carecia de sustentação histórica.
Em meu comentário, manifestei concordar com Augusto Nunes em algumas de suas respostas aos leitores que insistem na “saída militar”: os militares de hoje não são os mesmos das décadas de ’40, ’50, e ’60, oriundos do “Tenentismo”, que tiveram como guias espirituais veteranos da Guerra do Paraguai. O Exército de hoje parece transfigurado ao gosto do PT (utilizei estas palavras) e nada impede que o socorro não venha atender necessariamente o chamado da Oposição, e sim ao Governo, ao atual sistema hegemônico.
Mas os comentários todos que vieram em seguida trataram de suposta “arrogância” da comentarista-articulista, de brios de comentaristas ofendidos com a veemência, etc, etc, etc.
Não deveria me surpreender, mas ainda me surpreendo com o vazio mental desta gente que se debate sob o PT, fantasiando retorno mágico ao pré-2002, sem qualquer exame de suas práticas cívicas e, vá lá, intelectuais. Agem quase todos (senão todos) como se o atual quadro fosse nada mais que um pesadelo que esteja demorando excepcionalmente a terminar, como um engano histórico cujo desenlace não exigisse mais que insultar em caixas de comentários ou postar memes nas redes sociais. Por que então levariam em conta comentário que mostra, com fatos, nomes e fontes (o livro de Lacerda, ou arquivo de textos de Helio Fernandes) que nem toda intervenção militar leva fatalmente a uma ditadura? Afinal, nem a articulista de turno nem o titular do espaço se manifestaram…
Com oposicionistas deste calibre, o Governo não carece de amigos, e com imprensa adversária deste tipo, gastos com imprensa favorável tornam-se ainda mais obscenos.
X
Falar em dados importantes considerados minúcias, a fala de Vladimir Putin, ontem, na qual ele mencionava o apoio que conta de países da América do Sul não mereceu maiores considerações, ainda que seja confirmação suprema do braço russo, comprido como ele só, agindo no “Foro de São Paulo”. Parece que foi apenas um zumbido de microfonia que tivesse sido captado pelo áudio das TVs, nada mais. Nenhum comentário, nenhuma menção ao perigo que corremos todos; as reservas ideológicas se fundindo na incompetência – tudo a serviço de um suicídio das grandes empresas em mãos de herdeiros pouco apegados aos livros.
Lembrei do Olavo de Carvalho e de outros combatentes que tiveram perdas reais em suas tentativas de alertar a classe jornalística, para que estas informassem as massas – em vão.
Mediocridades são sempre premiadas entre nós e as páginas mais amargas – embora satíricas – do Lima Barreto em seus livros de crônicas – “Bagatelas”, por exemplo – me ocorrem, e ouço então o sussurro zombeteiro: “Você ainda espera algo do País, rapaz? Melhores que você sucumbiram sob o silêncio dos sabotadores de carreiras e da ação eficaz de demolição de vocações. Recorda a História e a biografia de algumas de tuas admirações”.
Não sei se haverá o que lamentar quando venezuelanos e bolivianos, sob orientação de colombianos comandados diretamente por cubanos dominarem por completo o Brasil – o qual será mera província da “Pátria Grande” sul-americana, associada à Rússia de Putin.
Não teremos merecido? Acaso ensaiamos algum esforço de recuperação intelectual das massas, massas que abraçarão os “libertadores” sul-americanos (o exemplo recente dos médicos cubanos sendo recepcionados com carinho pela população sem médicos brasileiros dispostos a socorrê-la, dispensando explicações), e não sem razão?
Vi nos olhos do líder russo a certeza dos que sabem próxima a hora de uma vitória decisiva aos rumos da História, pois conhecedores da nulidade intelectual e de vontade do inimigo, e não me congratulei pelo achado. Sofreremos todos, afinal.