Os oradores do PT na Praça Sete
“Eles não gostam de pobre…não gostam de negro…não gostam de mulher…é …estou começando a ficar preocupado com este pessoal do 45, não é, Rogério?”
Presenciei esta performance de um orador de caminhão do PT na Av. Amazonas, nas proximidades do Mercado Central, terça-feira. Havia passado há minutos pela Pça. Sete onde orador na Petelândia instalada ali garantia que “Aécio Neves está acostumado a bater em mulher…nós aqui de Minas ficamos sem saber de nada, porque a irmã dele controla a imprensa”. O aplauso dos militantes não abafava a indiferença dos que cruzavam o quarteirão fechado da R. Rio de Janeiro, seus olhares pareciam não notar orador e todos os militantes com suas bandeiras, adesivos e berros de palavras de ordem. Isto me lembrou Patrus Ananias em sua recente candidatura para Prefeito, discursando para seus correligionários e para as costas dos transeuntes que não diminuíam o ritmo dos passos rumo à Afonso Pena para ouvi-lo. As filas nos pontos de ônibus estavam ocupadas por pessoas que não viraram suas cabeças para atentar às advertências do início do texto, dirigidas a eles.
“Deve ser desanimador falar a quem berra silenciosamente o desinteresse, à maneira bem mineira (como dizia o Drummond)”, pensei.
Lembrei de um pastor itinerante com suas pregações pelos ônibus. Ele avançava pelo corredor do veículo, berrava versículos, admoestava costumes, lembrava as desventuras dos que “desprezam a Palavra”, enquanto casais se aninhavam, amigos discutiam arbitragem do último clássico do Mineirão e um passageiro deitava o olhar melancólico sobre a paisagem do Centro enquanto bebia cerveja em lata.
“Fosse padre Marcelo Rossi, todos estariam ouvindo, dando atenção, pedindo autógrafo”; lamentou o pregador, desistindo da atenção daqueles pecadores, na altura da Rodoviária.
Assim agem os tribunos do PT desta véspera de atenção – berrando acusações de moral de beata de vilarejo a quem votará ou não no PT por motivos de outra ordem: custo de vida e melhoras sensíveis ou insatisfação com a vida fora dos filmes publicitários. Ninguém mudará o voto pelo esforço destes rascunhos de lideranças, advindas em sua maioria do mundo sindical, ou de alguma entidade estudantil subsidiada.
Vi também neste dia e ontem mesmo, muitos adesivos do PSDB estampados em camisas e vestidos. Não, não era na Savassi, e não eram pessoas semelhantes às exibidas no filmezinho da “TV Folha” postado no “YouTube”. Nada de madames lindas que misturam tempos históricos em seus desabafos anti-PT, nem jovens que lamentam o PT entre uma balada para endinheirados e outra. Não, eram negros, pobres, gente mal vestida e que não marchava unida em um determinado ponto do Centro. Vi estes eleitores tucanos em diversas ruas do Centro, com olhar duro, mal percebendo estudantes de barbinha e patricinhas fantasiadas de hippie com o adesivo da Presidente Dilma Rousseff. Não queriam briga, não queriam papo, e pela dispersão no avanço desta massa, quem imaginar militantes pagos não sabe o que é militância paga, simples. Muitos elementos lumpen portando no peito o adesivo azul em contraste com o que vi portando o adesivo vermelho (sindicalistas, estudantes bem nascidos, professores universitários) num quadro nítido que dispensa ironias sobre o termo “coxinhas” utilizado como recurso verbal máximo para descrever o eleitorado do PSDB.
Não adianto nada, e as pesquisas mais recentes apontam para reeleição, mas voltei para casa nestes dois dias seguro de que a parada será menos gentil do que imaginam os governistas.
Tenho visto, ouvido (e por vezes tendo a infelicidade de ser o alvo das explicações) um tipo novo no quadro político brasileiro: o petista acanhado. Ele admite as denúncias de corrupção, concorda que melhorias reais não surgem para confirmar números oficiais, mas diz: “Sei disto tudo, nenhum presta, mas no Aécio não voto”, sacando do colete a argumentação usual em blogs simpáticos ao Governo, sobretudo a encontradiça nas caixas de comentários: ataques pessoais ao candidato do PSDB, acompanhadas de inverdades históricas divulgadas por “professores” que “ensinam” que “Tancredo Neves apoiou a Ditadura e Aécio se omitiu “.
O petista acanhado contempla uma variação: a dos que, embora admitindo que o Governo não é a maravilha que alardeia, e que as denúncias de corrupção assustam pela dimensão, têm ele e sua família experimentado melhoras em suas vidas: a casa própria, o filho na faculdade, a casa mobiliada, as viagens de avião, a cota de um clube, as idas ao shopping.
Mas petista assumido, fora do ambiente estudantil e de “movimentos sociais”, tenho visto pouco. São eleitores circunstanciais, embora apaixonados, de um partido que soube cultivar as massas, e que tem sabido demonizar o partido com o qual disputa o Poder, através do pavor (justificado, pois o PSDB foi e tem sido incapaz de convencer, de forma eficaz, estes eleitores) de um retrocesso do poder de compras e de dignidade pessoal.
Agora coligações assinam trégua, parece. Que vem sendo cumprida pelo PT pela reiteração das insinuações sobre fim de direitos trabalhistas e de programas sociais e pelos ataques pessoais nas caixas de comentários. Como agem sem retaliação, por que mudariam, a um passo da urna? A reação morna de Aécio e seu partido aos ataques de Lula e correligionários em comício aqui em BH estimula reincidências e a rejeição ao candidato do PSDB cresce como justo pagamento a quem se verga aos preceitos do bom-mocismo.
O PSDB demonstra, uma vez mais, não entender o que se combate.
X
Um assassino de diversas jovens, cujo único critério que obedeciam para ser vítimas era estarem vulneráveis aos tiros, alega ter sofrido abuso sexual na infância. E clama por tratamento.
Não sei se os “doutores em causas da violência” já emitiram parecer sobre o caso, e arrisco que não terão a facilidade de costume, pois o assassino não é negro, nem parece especialmente pobre. A vulgarização de critérios sociológicos facilita muito a lógica que acaba por explicar criminosos e ver na vítima (e na família, mais vítima ainda) alvo dos mistérios e caprichos de Deus: “Coitada, era a hora dela”. Quando se lembram deste pormenor: a vítima.
Mas embora a sociologia de almanaque não possa ser sacada desta vez, há os novos ingredientes para a explicação pré-cozida: abuso sexual na infância, uso de entorpecentes (embora porção mínima dos usuários saia roubando, estuprando e matando), bullying que o assassino sofreu (não foi este o pretexto para a chacina de Realengo?), e a psicologia para consumo das massas não cessará de contribuir com outras explicações aos crimes que a impunidade encoraja. Maldade do criminoso inexiste, pois aposentada pelo relativismo moral.
Esta campanha presidencial teve somente um candidato que pareceu e parece atento à criminalidade como fruto de penas leves (ou compreensivas, ou caducas por velhice): o do PSDB, e mesmo este foi, na maioria de tempo, pouco apaixonado neste combate.
Mais uma oportunidade desperdiçada que cobrará caro.