Ronaldo, o Culpado e Leis votadas sob emoção

Brasileiros que se queixam da propaganda oficial, dos pronunciamentos que nada concluem, melindram-se com declarações sinceras em demasia, ainda que emitidas por inadvertência. Correm às redes sociais para desabafos “conscientes” cujo repertório semântico não é dos mais ricos: “Alienado”, “Especialista em falar merda”, “vergonha alheia”, “se cair diante de um feixe de capim não levanta”, etc.

Foi assim com o Ronaldo quando o jogador declarou que, em país que escolheu ser sede de uma Copa do Mundo, as prioridades são as obras de construção de estádios e vias de acesso. Outras prioridades, estariam, pela própria escolha desta prioridade (sediar um evento esportivo) colocadas de lado. Chocaram-se, muitos, pela candura com que esta observação foi feita, mas estes muitos mesmo hoje poupam os políticos que fizeram a escolha por um evento que poderia esperar por um país com seus problemas mais urgentes ao menos atenuados. Mais fácil ofender o mensageiro que procurar atingir o autor da mensagem- a classe política (Lula e seu partido agiram sob conivência de muitos ditos oposicionistas) que fazendo pouco ou nada para minorar o sofrimento da população, implorou para que o Brasil fosse anfitrião de um evento fatalmente oneroso. Exigiram do atleta responsável por seu mister o cumprimento de uma obrigação geral e comum aos brasileiros: a lembrança de necessidades maiores a enfrentar: a saúde, a segurança, obras de infraestrutura, discussão de reformas que tornem o Brasil mais funcional e justo. Ele por lembrar o óbvio, é até hoje cobrado e agora acusado de “mudar de lado” ao constatar o atraso nas obras e o custo ofensivo aos brasileiros.

Mas agora mesmo os que gritaram “Não vai ter Copa” (um brado tardio, pois liberado das gargantas com atraso de anos) desistiram de anular o torneio, pois o sabem impossível. Para que serviria a anulação da Copa, falando nisto? As remoções já foram feitas, as obras, embora inacabadas, já consumiram os milhões que deveriam ter sido destinados aos enormes buracos da vida nacional. Como o grito das ruas demorou, como pareceu ter sido adiado ao ponto de tornar-se necessário uma “tomada de posição do Governo”.

As manifestações que decerto virão talvez divirtam os turistas, que terão histórias a contar aos seus compatriotas na volta, mas não darão ré na História; enfeitarão as biografias de participantes, imortalizados nas fotos de Ana Carolina Fernandes.

O que assimilar das lições da Copa não parece constar da agenda de nenhum militante (tanto os governistas, como oposicionistas) de redes sociais. O fato consumado serve para muitos como lei de esquecimento e afinal quem perdeu as moradias não foram os comentaristas de internet, não é mesmo? Como não poderão eliminar da História a imagem de Lula pulando eufórico ao receber o resultado favorável (?) ao Brasil, resta insultar Ronaldo, o que talvez console os habitantes do país sem biografias.

XXX

E aprovam sob a comoção do martírio do menino Bernardo, lei que o homenageia e que transfere ao estado muito da autoridade familiar. Claro que muitos pais não exibem condições mínimas de criar filhos, mas haverá a gradação necessária na qualificação do que é espancamento e o que é um corretivo físico suportável e necessário? Quem determinará o que é abuso, um burocrata? Ou algum padre que nunca enfrentou a criação de filhos? Mas isto, como de costume, não se deu tão de repente assim.

Os laboratórios de tutela que são os movimentos ditos sociais nunca deixam suas obrigações para o momento de os anunciar, mas os críticos parecem fazer exatamente isto. Não buscam contemplar o que esta gente produz em teses acadêmicas e revistas que, seguramente, são enfadonhas, mas necessárias para se entender o que se trama.

Quando Lula assegurou que não se deveria propor mudanças nas leis penais sob forte emoção- quando arrastaram um menino pelo cinto de segurança- quantos gritaram? Quantos contra-argumentaram indagando quantos crimes monstruosos como aquele seriam suficientes para que se pudesse discutir “com lucidez” o fim da impunidade para assassinos baseada no fetiche jurídico da classificação por idade?

Agora tratam de culpar Xuxa por apoiar a dita “Lei da Palmada”, aludindo grosseiramente ao filme de Walter Hugo Khouri como “pornô” (contribuindo, pela demonstração de ignorância cultural para a banalização de debates no Brasil), como se este “argumento” fosse sensibilizar os ativistas que trataram de impor sua agenda, sem descansar, sem tirar férias.

A “Lei Menino João Hélio” que ganhe defensores atentos e operosos.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.