Mario Sergio Conti, um “new journalist” brasileiro

Texto dedicado a um amigo e colaborador de Conti, falecido no último 8 de junho, Ivan Lessa

A marca distintiva do diletante autossatisfeito, fabricado pelas Universidades, é a afoiteza com a qual enuncia juízos calcados em leituras apressadas de, muitas vezes, um único autor. Nada de confrontar autores, linhas de pesquisa, e principalmente, reler. Afinal, o gongo soará anunciando a qualquer momento “o mais jovem gênio’”e tal maratona exige tempo que não pode ser dispersado em leituras e releituras. Escrevem, assim, sobre “new journalism” citando Hunter S.Thompson e Tom Wolfe, um punhadinho de Gay Talese, e pouco, bem pouco de Truman Capote e sabendo de Norman Mailer que ele era “misógino e homofóbico”, que esfaqueou uma de suas esposas e que bebia consideravelmente ( lembrando que não raros conhecem Capote, Wolfe e Thompson pela via cinematográfica). Hemingway conhecem como romancista, beberrão e caçador de elefantes, um John Huston escritor (quando conhecem a legenda Huston), nunca suspeitando que o que chamam pernosticamente de “gonzo journalism” (adotando a definição de Thompson ao seu trabalho) já estava presente nas reportagens de Hemingway sobre touradas e Guerra Civil Espanhola (as bebedeiras, o autor como personagem, a subjetividade, e outros tantos etc).

Portanto, não se deve esperar destes beneficiários da reserva de mercado para portadores de diploma de Jornalismo conhecimento sobre as crônicas de guerra de Rubem Braga, as reportagens (líricas? impressionistas?) de Joel Silveira e mesmo o esforço de Euclydes da Cunha n’”Os Sertões”. “New Journalism é o “Gonzo “ de Thompson e nosso é o jornalismo de gazeta de arraial quando não copiamos “as técnicas americanas”. Assim, quando tentam praticar “jornalismo não padronizado” seguem religiosamente o padrão “redator de suplementos para jovens”, tentando (necessário dizer que pateticamente?) reproduzir o “estilo gonzo”, dele assimilando apenas os cacoetes mais risíveis, cometendo assim “new journalism “ americano redigido em português MTV. Textos industriais, inidentificáveis os autores.

Felizmente, há Mario Sergio Conti, jornalista que com seu padrão de exigência elevado – desde a “Veja” dos anos ‘90 (quando Diretor de Redação da revista, na qual fora anteriormente editor de Artes e Brasil, além de Redator Chefe), ou em seu livro já clássico “Notícias do Planalto”, nas suas passagens pelo JB, na troca pública de emails (parceria posteriormente transformada no livro “Eles Foram Para Petrópolis”) com o gigante Ivan Lessa (mais uma baixa no exército dos inteligentes brasileiros) ou em textos avulsos e finalmente dirigindo a “piauí” e comandando o “Roda Viva” – conduz esforços para se criar new journalism brasileiro. Sem americanices, como nota o clichê, internacional sem ser colonizado, new journalist no feitio de Brasil.

O rigor na apuração dos dados e a elaboração obsessiva dos textos, visivelmente reescritos no limite do esgotamento, são características que embora devessem ser nada mais que o mínimo esperado de qualquer profissional do ramo, em alguns configuram marca reconhecível, que torna seus textos autorais. Caso de Conti.

O tom sarcástico, desiludido, como Machado de Assis de Esquerda (trotskista na juventude) nas cidades gigantescas, é o do intelectual que sabe que sonhos não realizáveis são desperdícios de energia mental e portanto se ata ao universo dos fatos, ainda que o discurso para o ônibus lotado seja tentação opressiva, sendo frequentemente cobrado pelo que não escreveu, ou por não ter escrito obviedades grandiloquentes. O que é inegociável para jornalistas com este nível de exigência é o cuidado com o produto final, todo o mais sendo apenas prostituição do talento com vistas ao sucesso junto a público de curiosos consumidores de falsificações jornalísticas, e portanto, recusado sem contemplações. “Não se desperdiça tempo e engenho com desinteressados”, parece ser a divisa de quem escreve e reescreve tendo como critério único o texto, sua eficácia e perenidade, como arma e arte.

As edições da “Veja” sob seu comando, por ex, são – desde as capas (e não se diga que ele não era o capista, pois tal argumento expõe ignorância sobre as atribuições e prerrogativas de um Diretor de Redação e das lendárias cobranças de Conti quanto ao aspecto gráfico) aos textos jornalísticos densos, extensos, e minuciosos, e a equipe de colaboradores que contava com Marcos Sá Corrêa, Élio Gaspari, Jô Soares e o jovem resenhista de livros Diogo Mainardi – obras de arte guardáveis, resistentes à provável descartabilidade das revistas enquanto meros veículos de notícias . Embora “Veja” já tivesse este padrão como norma, sob Conti, tal padrão se superou.

Quem não se lembra pode recorrer ao “Acervo Digital” da revista e observar as edições, com as capas, para mencionar alguns exemplos, referentes ao romance da Ministra Zélia Cardoso com Ministro Bernardo Cabral em forma de história em quadrinhos (semelhante à outra edição clássica que retratava os tiros do então Governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, no antecessor Tarcísio Burity), a capa histórica “Pedro Collor CONTA TUDO”, passando pelo então presidente do Banco do Brasil Lafaiete Coutinho como cangaceiro, entre outras tantas edições onde as capas impressionam e contém recheio de textos extensos, bem documentados e mordazes que, embora amparados em fatos, exploram nuances. Fossem publicados em “Esquire “ e em “New Yorker”seriam catalogados como “jornalismo literário”. No Brasil … acusam de ser “barroca”, “preciosista”. As críticas à “Veja “ deste período são de natureza diversa dos ataques feitos à publicação atualmente, mas eram constantes.

O livro sobre a imprensa no episódio Collor, de sua autoria, causou polêmica por expor ao público rumores antes circunscritos às redações, como ofertas pecuniárias a Diretores de jornais e revistas e, pasmem, por sua literariedade.

Sim, por ser bem escrito e ter elementos novelísticos como descrições de diálogos e referências a “pensamentos”. O programa “Roda Viva” no qual Conti foi entrevistado quando do lançamento (disponível no YouTube, integralmente) o mostra respondendo a estes reparos de “colegas”. No mesmo programa, há o momento no qual Conti explora sua veia satírica ao discutir com professor de Jornalismo sobre as escolhas ideológicas da revista, onde Conti explica candidamente, como que explicando a um tolo incurável, que uma revista corporativa só poderia apoiar um candidato corporativo e evidenciando a diferença entre o volume de informações de seu livro (centenas de entrevistas em mais de setecentas páginas) e o de seu oponente com postura de examinador de banca de mestrado arguindo um aspirante a título acadêmico (cem páginas de texto contendo seis entrevistas), o qual parecia inocente do inadequado de sua postura num programa de entrevista.

Este programa revela cruamente o quanto os intelectuais brasileiros são (pois nada mudaram nos doze anos que separam a entrevista de hoje) em sua maioria despreparados para analisar uma reportagem literária, redigida com sofisticação e minúcia. Para estes jornalistas, o professor citado sobretudo, jornalismo é a mera transcrição mal cozida dos dados colhidos, o leitor não merecendo o luxo de um texto bem trabalhado .

A mesma incompreensão frente ao refinamento e agudeza de seu trabalho vem agora de telespectadores do “Roda Viva”, os quais em sua maioria ignoram completamente quem é o “apresentador antipático”, “sem carisma” que questiona os entrevistados, não se contentando em balançar a cabeça e distribuir perguntas (críticas do mesmo tipo eram, falando nisso, dirigidas ao antigo “discutidor” do programa, Augusto Nunes) . A estreia de Conti apresentador, com Cabo Anselmo causou comoção por parte de quem achou o apresentador “parcial”, “agressivo”. Questionamentos são, para este público, algo por si só, atemorizador e as perguntas do âncora sobre como o lendário líder da revolta dos marinheiros vivia com seus fantasmas soaram provocações e insultos. Nuances são indigestas, as queixas dizem.

A mesma reação irritada se verificou em alguns comentaristas do YouTube quando entrevistou Gay Talese na FLIP. O deslumbramento dos admiradores do new journalist americano tomou como agressivos os questionamentos do colega brasileiro.

Quando o irmão de Celso Daniel, Bruno, foi confrontado sobre provas e evidências, cartas aos blogueiros da “Veja” (de autoria de leitores aparentemente ignorantes da biografia do ex-Diretor da revista para a qual escreviam) perguntavam qual teria sido a paga pelo “comportamento parcial do apresentador”. Perguntar e questionar respostas é, para este público, demonstração de partidarismo e de flagrante segunda intenção. Ataques que não foram repelidos nem tratados como insultos irresponsáveis a um profissional de talento reconhecido por parte dos referidos colunistas, registre-se.

O rebaixamento de status que é proporcional à “fama” obtida pela exposição televisiva exige outros textos, mas o que irritou os telespectadores do “Roda viva” é o que sempre irritou leitores : a obsessão pelo pormenor, a ironia, a recusa à explicação simplista de temas complexos (sua defesa do crime passional no caso PC Farias na “Veja” que então dirigia, quanto no livro citado, se baseava em fatos, ainda que estes contrariassem o senso comum, ou frustrassem expectativas de grandes enredos).

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.