Por um “Depoimento” de Helio Fernandes

O Brasil exibe desprezo de renunciante religioso por seu patrimônio humano: talentosos recebem tratamento de mobília pesada e espaçosa enquanto nulidades têm seus mínimos suspiros registrados e celebrados. Não sei se em outros terrenos é assim, falo do país que conheço, lembrando do personagem inglês de Eça de Queirós que, em “os Maias”, garantia que em todos os lugares corridas de cavalos eram decididas a faca, mas por precaução retirava sua égua da disputa. Cantores americanos juram amor ao Brasil no palco com a passagem de avião reservada, somos como somos. Poderíamos ser outros?

Os Estados Unidos, por exemplo, são pródigos em tributos e documentários aos seus valores, imortalizados por seus pares e discípulos, nas mais variadas áreas. Não se admite que, para oferecer alguns exemplos, políticos, esportistas, cientistas e principalmente artistas, morram carregando para o subsolo suas memórias não partilhadas com o público. Mostram conhecer o preço que se paga em tempo e tentativas vãs o desperdício da experiência dos que se destacaram em seus ofícios. Não acreditam na reinvenção da roda, em suma.

Já aqui, talento e experiência são estigmas que justificam e exigem o esquecimento. O sentimento de ameaça ao que Carlos Lacerda denominava de “placidez lacustre da mediocridade” é muito presente entre os que ocupam o poder cultural no Brasil, daí a desertificação do terreno memorialístico no País, em dias que suportam acintosa inversão de valores, inversão realizada por gente que só alcança seu momento de ribalta graças a ela. O que me lembra os poucos livros de “Depoimentos” dos quais dispomos: os de Juracy Magalhães, o de Cordeiro de Farias, o de Samuel Wainer (recolhido por Augusto Nunes, nome dos mais adequados para a tarefa, por ser um interessado em História do Brasil e escrever limpidamente), o de Antônio Carlos Magalhães e o indispensável em qualquer biblioteca digna do nome, “Depoimento” de Carlos Lacerda. São volumes, todos, que redimem o Brasil de seu desprezo por seus personagens e sua biografia de Nação. Mas são ainda poucos, humilhantemente poucos. Absurda e vergonhosamente poucos, em país que publica florestas inteiras de lixo.

O que países como os Estados Unidos não fariam com um material como Helio Fernandes? 91 anos de idade, mais de 70 de carreira jornalística, personagem da História. Cassações, prisões, inúmeros processos, três confinamentos (um em Fernando de Noronha), dois atentados à bomba (um explodiu seu carro, outro seu jornal), brigas diversas à Esquerda e à Direita. Até filme já teriam feito, aqui não se cogita de um seriado de TV sequer. Um processo contra a União se arrasta há décadas, e poucas vozes fora do círculo de amizades do velho jornalista protestam contra esta violência com o decano dos jornalistas brasileiros. Divergências políticas e antipatias pessoais se sobrepõem a qualquer solidariedade de categoria e o combatente da Rua do Lavradio conta somente com alguns abnegados que ainda publicam a “Tribuna” em forma de blog, sem ânimo para escrever sua coluna que por décadas foi testemunha (de acusação) da política nacional e que educou politicamente jovens gerações que foram apresentados a fatos da História do Brasil, sempre rememorados por repórter que cobriu a Constituinte de ’46, a crise do segundo Governo Vargas, a luta de JK para chegar à Presidência, a vertigem Jânio Quadros, o turbulento Governo Goulart, as diversas fases da Ditadura, o período Sarney, etc, etc, etc. O Brasil teve em sua coluna retrato em tons fortes e no momento em que escândalos não são mesmo possíveis de contar, em que o poço se confirma como sendo sem fundo, em que o nivelamento por baixo se cristaliza como estilo pátrio de viver, o País não conta mais com suas risadas gráficas (”Há !Ha!Ha!) frente às explicações grotescas de governantes inoperantes, suas qualificações de comportamentos (”Absurdo!Inacreditável!”) dos mesmos personagens, sua memória enciclopédica.

As entrevistas que fazem vezes de “depoimentos”são poucas (uma de ’78 por Sebastião Nery para a “Status” e outra para o jornal da Associação Brasileira de Imprensa) e cobrem suas reminiscências de infância, juventude e vão na linha do tempo até o fim da Ditadura.

Sofrem também do mal da “ação entre amigos” – não se questiona contradições, episódios desagradáveis para o entrevistado, suas brigas com Leonel Brizola (os mais jovens, ao ler artigos recentes e entrevistas de Helio Fernandes jamais podem imaginar o quanto estes dois personagens se enfrentaram – ao contrário, podem mesmo jurar que foram sempre amigos), as acusações de praticar “jornalismo marrom” – e acredito que jornalistas alheios ao seu círculo extrairiam mais do personagem.

Por isto um “Depoimento” de Helio Fernandes é tão imperioso – livro composto por várias sessões de entrevistas, com a participação de vários entrevistadores, com o entrevistado discorrendo pormenorizadamente sobre tudo o que viu, sobre exaltações que, lembradas, pareçam-lhe excessivas, mas justificáveis, ou injustiças explicadas pelo contexto histórico no qual foram cometidas, passando por fatos que moldaram seu caráter e forjaram seu destino na infância e primeira juventude, perfis de personalidades com as quais conviveu (Lacerda, Jânio) e combateu (ACM, Roberto Marinho), um mergulho demorado em suas memórias auxiliado por jornalistas interessados em recolher dados que ameaçam desaparecer com a sua morte. Enfim, um trabalho de paciência e carinho.

Um “Depoimento“, como o que se fez com Lacerda, conduzido por jornalistas jovens e curiosos, com previsão de número não acanhado de páginas, seria presente generoso das editoras para o leitor de livros sobre História do Brasil e Jornalismo.

Que eu não seja o único a sonhar com tal livro.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.