Bruno – A mulher de César

O inquietante neste episódio do Bruno (ex?) goleiro do Flamengo é o que ele traz à tona, mais até do que o homicídio ainda controverso, ou de responsabilidade controversa: a tabela de valores do belorizontino médio. Ouvi numa conversa de ônibus, numa dessas viagens sonolentas, onde a idade do veículo se casa com a morosidade do trânsito, o seguinte comentário (era logo na primeira semana em que o Brasil era apresentado a Elisa Samudio, o goleiro ainda solto): “Vê se tem base falar que ela era garota de programa, você não viu a revolta do pai dela? ” E isto não saiu da boca de alguma idosa portando terço ou a “Folhinha de Mariana”, era jovem presumivelmente universitária e provavelmente petista.

Os aspirantes ao título de Datena local sempre lembram o gênero de filmes em que a moça ainda desaparecida atuava, parecendo usar de esforço para reprimir o impulso de analisar pormenorizadamente suas performances artísticas em programas do meio dia. O advogado de Bruno não se limita apenas aos filmes protagonizados pela moça cujo paradeiro ainda é misterioso, analisa a família e conclui que alguém egresso de “lar desestruturado” não hesitaria em desaparecer apenas para incriminar desafetos. Lembro ainda da chegada de Bruno a BH, a cobertura parecia exagerada a muitos, que indagavam se este era o único homicídio no Brasil, como se goleiros de clubes com enormes contingentes de torcedores, cotados para suceder o atual goleiro na Copa de 2014, se vissem envolvidos em episódios de crônica policial rotineiramente.

Ainda que Eliza Samudio surgisse sobre o pirulito da Praça Sete discursando ao povo de BH sobre a inocência de Bruno, explicando que estivera internada numa clínica de repouso para se recuperar de maus tratos infligidos pelo círculo íntimo do goleiro, o qual de tudo ignorava, isto não tornaria a figura de Bruno, ao menos para mim, menos temível. O que se publicou sobre surras e arremessos de garrafas em prostitutas nos churrascos que promovia e sobre o tal círculo íntimo, parece bastar para mantê-lo afastado do clube de minha obsessão, assim como a César bastou a suspeita de infidelidade para repudiar a esposa, segundo o que se aprende no Plutarco: “À mulher de César não basta ser honesta, ela deve PARECER honesta” – não se exigiu o lençol como prova. Mas isto não parece encontrar ressonância nas mentes anestesiadas por doses frequentes de corrupção ministradas por quem deveria dar exemplos, e percebo como maioria os que culpam Eliza Samudio, a porn star disposta a esfolar o filho humilde “do nosso estado”, que se estivesse bem-intencionada, não iria ao encontro da morte “por pura ganância.”

Não se procura sequer mascarar a preferência, a paixão por razões de solo. Falam sem olhar pro lado, BH sem maquiagens.

À mulher de César basta saber sorrir e ser julgada no chão onde nasceu, onde seus pais nasceram, por gente da terra.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.