Mailer, brilho que cega
Comecei a ler “Harlot`s Ghost” de Norman Mailer e tanto o peso do volume (mais de mil páginas) quanto as analogias e descrições mailerianas me desanimaram por ora. Há muitos clássicos a ler e a CIA (tema da obra) tem melhor romance na não ficção de “Veil” de Bob Woodward sobre a Agência no período Reagan. O livro é o “Noites Antigas” (clássico de Mailer situado no Antigo Egito) da Guerra Fria, o mesmo livro reescrito por Mailer, pensando bem.
Mas o que me faz mesmo encostá-lo para outra ocasião é o massacrante complexo de inferioridade que Norman Mailer me provoca, é seu monstruoso talento gritando ao resto de nós que nem em mil encarnações nos igualaremos a ele, que dirá superá-lo. É sabê-lo ofuscante como, perdoem o clichê, a luz na entrada de Damasco, como o sol refletido na salina confiscando de vez nossa visão.
Mesmo em seus livros tidos como menores, frutos de encomenda (“Marilyn”) ou nos textos de ocasião (seus últimos textos sobre Bush) sua superioridade no ofício era reiterada sem contemplação aos medíocres.
Ouço e leio com frequência apressados atribuindo a Hunter Thompson a façanha de ter subvertido por completo o conceito de reportagem, se “inserindo” como personagem nos textos. Pergunto se leram “Miami e o Cerco de Chicago” ou “Os Exércitos da Noite”, bem, vocês já adivinham a resposta.
Norman Mailer deveria ser proibido para aspirantes a escritores. A raça, já em extinção, corre o risco de desaparecer de vez.